O Cirque du Soleil e a Estratégia do Oceano Azul

O Cirque du Soleil e a Estratégia do Oceano Azul

Neste primeiro artigo, referente ao tema “Estratégia (Lean Startup e Design Thinking)”, trago o case de um dos maiores circos do mundo, como exemplo de uma estratégia muito importante para empresas de qualquer porte.

Sim, iremos falar sobre circo! Mas de uma forma como você nunca viu!

Convido você a imaginar um local onde tudo é limitado. Nele, predominam as disputas, a escassez e a concorrência acirrada. Neste lugar, você nunca está sozinho e tem de se envolver em brigas para conseguir o que quer. Chamam este lugar de oceano vermelho.

Agora, imagine um lugar vasto, cheio de recursos, pouco explorado e repleto de coisas novas para descobrir. Nele, você é o personagem principal e tem todos os recursos necessários bem à sua frente. Tudo só depende de você. Este é o oceano azul.

Conseguiu imaginar? Bom, com esses exemplos, você entenderá uma importante teoria do mundo dos negócios: A Estratégia do Oceano Azul.

O oceano vermelho é aquele que está congestionado e cheio de “tubarões” com os quais você tem de lutar por tudo e por nada. Traduzindo para o mundo dos negócios, é aquele cenário que já está saturado de empresas que fazem mais do mesmo. Se seu negócio estiver nesse local, certamente enfrenta uma imensa concorrência e tem dificuldades para se diferenciar no mercado.

É inegável a importância de se navegar em um oceano vermelho e aprender a superar os concorrentes. Sabemos que navegar por essas águas é algo que faz parte da vida de um empreendedor. Porém, quando a oferta ultrapassa a procura, a competição é inútil e não será o suficiente para que uma empresa se destaque na mente do consumidor.

Já o oceano azul é aquele oceano vasto e límpido, onde você está praticamente sozinho e todos os melhores recursos estão à sua disposição. Você tem um lugar imenso pra explorar, descobrir coisas novas, fazer testes e lançar novidades. Nesse cenário, seu negócio é único, não sofre com a ameaça da concorrência, seu posicionamento é bem definido no mercado e seu produto ou serviço é referência em qualidade.

Guy Laliberté, ex-artista de circo, é hoje CEO de uma das empresas que mais exporta no Canadá, o Cirque du Soleil. Criado em 1984 por artistas de rua, os espetáculos do Cirque su Soleil já foram vistos por mais de 40 milhões de pessoas. Em menos de 20 anos, o Cirque alcançou o campeão da indústria circense, que levou 100 anos para construir seu império, o Ringling Brothers.

O que mais nos chama a atenção é que esse espantoso crescimento aconteceu em um setor que não é tão atrativo para a maiorias das pessoas. Por exemplo, vemos crianças chorando para ganharem um novo video game e não para ir ao circo. Vivemos em um mundo onde há muitas opções de entretenimento. Com isso, o público que frequentava os circos se torna cada vez mais reduzido.

Outro ponto importante sobre o crescimento dessa empresa é o fato de se expandir sem precisar “roubar” fatias de mercado já existentes na indústria circense. Por exemplo, não se concentraram em criar apenas espetáculos voltados para o público infantil.

Em contrapartida, o Cirque voltou seus esforços para explorar um novo mercado, onde não havia a ameaça da concorrência. A principal estratégia do circo foi atrair a um público totalmente diferente: clientes empresariais e adultos que estivessem dispostos a pagar um valor muito superior ao habitual. Em troca desse aumento de valor, é oferecida aos clientes uma experiência única de entretenimento, tanto que uma das primeiras produções do Cirque du Soleil foi chamada de “A Reinvenção do Circo”.

Na época em que o Cirque nasceu, os outros circos tinham como estratégias imitarem uns aos outros para atraírem mais público. Uma das “tendências” da época era a contratação de acrobatas, palhaços ou domadores famosos com o objetivo de aumentar o valor dos ingressos. Porém, um detalhe era esquecido: nada era agregado à experiência do cliente. Como era de se esperar, o resultado foi um desastre: aumentavam-se os gastos para a contratação de pessoas famosas e havia uma diminuição na entrada de receitas, afinal, as pessoas não estavam dispostas a pagarem o valor proposto em troca de uma experiência comum.

Enquanto o Cirque du Soleil escolheu simplesmente ignorar a concorrência e fugir de suas tendências. Ele nasceu com a ideia de proporcionar diversão, provocar vibração e, ao mesmo tempo, oferecer a sofisticação intelectual das artes e do teatro. Ao escolher navegar por águas desconhecidas, o novo empreendimento teve uma grande recompensa: conhecer melhor aos clientes. Assim nasceu um novo conceito de circo e também um oceano azul.

Enquanto os outros circos seguiam a linha tradicional, ou seja, apresentações com animais, pessoas famosas, três picadeiros e descontos nos ingressos para grupos, o Cirque de Soleil não temeu romper com essas barreiras e mais uma vez saiu à frente.

Sem se importarem com a experiência de seus clientes, os circos tradicionais não perceberam que as pessoas não estavam satisfeitas com: a presença de animais nos espetáculos, devido aos maus tratos que sofriam; que não davam a mínima se os artistas eram famosos ou não e a dinâmica de três picadeiros fazia com que os espectadores ficassem perdidos e confusos sobre os pontos de atenção e, por fim, os descontos para grupos até geravam receitas mas, os altos preços dos ingressos comuns davam a muitos pais a sensação de estarem sendo explorados.

Logo, notamos que o Cirque tinha a solução para todos esses problemas enfrentados pelas pessoas e escolheu manter e aperfeiçoar as únicas três coisas que chamavam a atenção das pessoas nos circos tradicionais: os palhaços, a tenda e as acrobacias. Outro ponto explorado foi a organização de seus espetáculos por temas, algo semelhante a uma apresentação teatral. Todas as apresentações têm harmonia, o que já representava uma grande inovação no segmento. Isso conferiu bom gosto artístico e refinamento intelectual às apresentações.

Além disso, aproveitou a ideia dos shows da Broadway: apresentar produções diferentes, ao invés de apenas um único tema. Como na Broadway, também o Cirque produziu músicas, iluminação e cores especificas para cada espetáculo, o que deu um ar de sofisticação e conferiu uma experiência visual única para a platéia.

Agora, vamos entender melhor a Estratégia do Oceano Azul?

Como foi ilustrado neste exemplo do Cirque du Soleil (oceano azul) em comparação aos circos tradicionais (oceano vermelho),notamos as seguintes diferenças, que podem ser estratégicas para qualquer tipo de negócios:
Oceano vermelho

-Competir nos espaços de mercado existentes.

-Vencer os concorrentes.

-Aproveitar a demanda existente.

-Exercer o trade-off valor-custo.

-Alinhar todo o sistema de atividades da empresa com sua escolha.
Oceano azul

-Criar espaços de mercado inexplorados.

-Tornar a concorrência irrelevante.

-Criar e capturar a nova demanda.

-Romper o trade-off valor custo.

-Alinhar todo o sistema de atividades da empresa em busca da diferenciação e baixo custo.
Para executar essas ações, os empresários do Cirque du Soleil observaram que para criar o novo era necessário eliminar o antigo, reduzir gastos e aumentar o valor agregado. No caso, eles:

Eliminaram: Astros circenses, espetáculos com animais, descontos para grupos, espetáculos em vários picadeiros.

Reduziram: Diversão e humor. Vibração e perigo.

Elevaram: Picadeiro único.

Criaram: Tema, ambiente refinado, várias produções, músicas e danças artísticas.

Três características vitais

Quando a Estratégia do Oceano Azul é eficaz, apresenta três qualidades complementares: foco, singularidade e mensagem consistente. Sem essas qualidades, uma empresa provavelmente estará confusa, com uma alta estrutura de custos, indistinta e difícil de comunicar.

As quatro ações de eliminar – reduzir – elevar – criar devem ser bem orientadas para o desenvolvimento de três qualidades que servem como teste para validar o bom funcionamento da estratégia do oceano azul. São elas:

Foco: toda estratégia notável tem foco e o perfil estratégico da empresa deve mostrar isso com nitidez.

Singularidade: Quando uma estratégia é feita de forma reativa, como tentativa de acompanhar a concorrência, ela perde toda a sua singularidade.

Mensagem consistente: uma boa mensagem deve ser clara e deve anunciar uma oferta verdadeira, para que os clientes não percam a confiança e o interesse.

 

 

 

Texto inspirado no livro “A Estratégia do Oceano Azul”, de W. Chan Kim e Renée Mauborgne. / Imagem: Cirque du Soleil, Google Imagens.

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