Você sabe perder?

Você sabe perder?

Vou abrir o artigo de hoje com um poema.

A arte de perder

A arte de perder não é nenhum mistério; 

Tantas coisas contêm em si o acidente.

De perdê-las, que perder não é nada sério. 

Perca um pouquinho a cada dia. 

Aceite, austero, 

A chave perdida, a hora gasta tolamente. 

A arte de perder não é nenhum mistério. 

Depois perca mais rápido, com mais critério: 

Lugares, nomes, a escala subseqüente.

Da viagem não feita. 

Nada disso é sério. 

Perdi o relógio de mamãe. 

Ah! E nem quero 

Lembrar a perda de três casas excelentes. 

A arte de perder não é nenhum mistério. 

Perdi duas cidades lindas. 

E um império 

Que era meu, dois rios, e mais um continente. 

Tenho saudade deles. 

Mas não é nada sério.

– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada. 

Pois é evidente que a arte de perder não chega a ser mistério por muito que pareça (Escreve!) muito sério.

 

Elizabeth Bishop

(Elizabeth Bishop é uma autora americana, considerada um das mais importantes poetas do século XX a escrever na língua inglesa. Em 1976, foi a primeira mulher a receber o prêmio internacional Neustadt de Literatura.)

E aí? Concorda que saber perder é uma arte?

Vivemos em um mundo de vencedores. Desde crianças aprendemos a competir. Aprendemos que vencer, seja por uma boa nota em uma prova ou em uma competição de esportes, é uma forma de chamarmos a atenção de nossas famílias e de nos destacarmos. Quando adultos, aprendemos a competir com nossos colegas de trabalho. A regra para nós sempre foi competir para ganhar. Vemos milhares de livros que nos ensinam lições como “como ser um líder no mercado de ações” ou “como ganhar um cliente” ou ainda “como vencer no mundo dos negócios”. Seja na política, nos negócios ou em qualquer área nunca falamos sobre perder.

Algumas vezes, ouvimos falar sobre falhas. Mas falhar não é o mesmo que perder. Os empreendedores do Vale do Silício nos ensinam que quanto mais rápido falharmos, melhor. Mas isso está longe de ser uma perda. Falhas podem ser corrigidas, as perdas não. Elas podem ser lentas e sem possibilidade de recuperação completa. Por isso, podemos dizer que saber perder é uma arte menosprezada.

No ambiente de trabalho do futuro (que está mais próximo do que imaginamos), saber perder será um grande diferencial. Não apenas como uma forma de demonstrar nossos valores, mas como uma habilidade necessária para desempenharmos nosso trabalho. Sabemos que robôs e máquinas substituirão cerca de 50% da força de trabalho humana, logo veremos muitos empregos e cargos desaparecerem. E você está pronto para isso? Precisamos estar cientes de que nesse ambiente de trabalho flexível, teremos menos autoridade e menos controle sobre nosso trabalho.

A maioria de nós se encontrará em grande desvantagem ao competir com máquinas, logo, o nosso diferencial será a arte de saber perder. Máquinas podem falhar, parar de funcionar, mas nunca irão perder. Ao contrario delas, para nós perder pode ser inevitável e o que nos diferencia é a maturidade com a qual iremos lidar com esse sentimento de perda.

Mas como podemos aprender a perder?

Precisamos criar sistemas que nos permitam encontrar a nós mesmos, a não esquecer quem somos quando perdemos. Sei que não é algo fácil de se fazer, mas não podemos perder o foco.

Precisamos criar sistemas, rituais e apoios que nos permitam encontrar-nos mesmo quando perdemos. Atém disso, precisamos “menosprezar” um pouco nosso conceito de vitória e lidarmos com elas com humildade. Deveríamos considerar como vitórias reias algo que resolva problemas da humanidade, que crie igualdade social e que realmente faça do mundo um lugar melhor. Diante desse ponto de vista, será que conquistar mais um cliente ou ter mais dinheiro no bolso é realmente uma vitória?

Precisamos nos lembrar de que perder com classe e dignidade é algo mais valioso do que vencer. Perder é essencial para a nossa condição humana.

Em uma corrida de automóveis, por exemplo, todas as honras são concedidas ao piloto vencedor. Ninguém se lembra do cara que ficou em último lugar e, quando se lembram, se referem a ele como, “lanterna”. No entanto, ninguém se lembra da experiência que esse piloto teve, da rica visão que teve da corrida como um todo e no quanto pôde aprender para a próxima prova. Assim também acontece em nossas vidas, focamos apenas em ganhar ou perder. Nunca nos lembramos de que quem fica por último pode ter muito mais histórias para contar.

À medida em que avançamos para o futuro, precisamos nos diferenciar a partir do que nos torna mais humanos, precisamos fazer de nossas vidas uma constante evolução. Não devemos ver uma derrota profissional ou uma perda pessoal como apenas uma colisão na estrada, precisamos “abraçar” o fato de que perder é a base da nossa humanidade.

 

Referências: 

“The art of losing”, Elizabeth Bishop

“The lost art of losing”, Tim Leberecht.

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